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Full text of "Em terras de Portugal; recordações, esbóços, phantazias [por] Alfredo Pinto (Sacavem). Illus. photographicas do auctor"

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ALFREDO  PINTO  (SACAVÉM) 


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EÍ4JERRAS 


DE  PQRTIJfiÂL 


DP 
52; 


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pLFfLD^oPiMO 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


DO  MESMO  AUCTOH 


Jesus  e  a  Samaritana. 

Scenas  d' Aldeia,  (esgotado) 

A  Moabita. 

Telas  da  Vida. 

Abandonada  I 

A  Tetralogia  de  Ricardo  Wagner.  (2."  edieâoi 

Impressões. 

Chopin.  (tradiicção) 

No  Remanso  do  Lar.  (chronicas» 

Horas  d' Arte.  ll."  serie) 

Verdi.  (conferenciai 


Em  preparo 


Parsifal. 

Músicos,  (enchíridíon  biographico) 

Sol  ardente,  (romance) 

Horas  d' Arte.  (2.*  serie) 


Alfredo  Pinto  (Sacavém) 


k  km  de  Poítugal 


RECORDAÇÕES  —  ESBOÇOS  —  PHANTAZIAS 


>4 


(ILLUSTRAÇÕES  PHOTOGRAPHIC AS  DO  AUCTOR) 


1914 

LIVRARIA  FERIN 
70,  Rua  Nova  du  Almada,  74 

LISBOA 


n- 


Passar  algum  tempo  no  campo  é  um  ha- 
bito que  entra  na  massa  do  sangue  desde  o 
alvorecer  da  nossa  mocidade,  e  assim,  logo 
que  a  natureza  se  envolve 
com  o  manto  variado  das 
suas  cores,  pensamos  logo 
em    abandonar   Lisboa   e 
vermo-nos  livres,  por  al- 
guns mezes,  da  vida  buli- 
çosa da  capital,  com  tudo 
que  etla  possue  de  simu- 
lado na  sua  vida  íicticia  e 
pouco  hygienica. 

Assim  uns  tempos  no 
campo  são  um  verdadeiro 
bálsamo  de  conforto,  de 
tranquillidade    á    nossa    existência  physica  e 
intellectual. 

Na  ^tjõôr  parte  da  gente  não  existe,  infeliz- 
mente, a  ideia  nitida  que  se  deve  ter  de  uma 
estada  no  campo. 

Geralmente  todas  as  familias  abandonam 
Lisboa  pelo  espirito  comesinho  de  seguirem  a 


BILHA  DE  SEGREDO 

(Época  da  rainha  D.  Leonor) 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


moda  de :  ir  para  fóra^  e  lá  terem  a  mesma 
vida  da  cidade,  com  o  mesmo  luxo  das  toilet- 
tes,  com  todo  esse  rosário  de  ideias  balofas  e 
ridiculas  que  enche  os  cérebros  das  mães  de 
familia,  em  que  as  thermas,  praias,  etc,  são 
apenas  pretextos  para  mostrarem  as  filhas  e 
verem  se  as  casam  ricas  o  mais  depressa  pos- 
sível ! 

Todas  as  infinitas  belezas  que  a  natureza 
lhes  oíTerece  n'essas  terras  para  onde  vão  per- 
manecer alguns  mezes,  passam  desapercebidas 
como  verdadeiras  vulgaridades. 

Por  isso  direi  que  sempre  me  faz  pena  não 
comprehenderem  o  campo  para  onde  vão,  e 
saberem  gozar  d'elle  com  aquelle  amor  e  cari- 
nho que  elle  tanto  merece. 

Mas  deixarei  estas  considerações,  pois 
malhar  em  ferro  frio  é  tempo  sempre  perdido, 
e  entrarei  no  assumpto  d'estas  notas,  d'estes 
esboços  colhidos  a  esmo  que  apenas  têm  um 
íim  —  contar  as  minhas  simples  impressões 
de  mero  viandante  por  esses  montes  e  valles 
d'esta  nossa  querida  terra ;  impressões  não  re- 
vestidas com  a  burilada  linguagem  d'um  Ber- 
nardin  de  S.  Pierre,  que  tanto  adorava  o 
campo,  nem  como  Victor  Hugo  nos  seus  livros 
sobre  o  Rheno,  mas  sim  com  o  estylo  simples 
de  um  forasteiro  que  longe  de  Lisboa,  vae 
colhendo  aqui  e  alli  pequenas  notas  impres- 
sionistas que  o  meio  lhe  oíferece,  lodo  esse 
scenario   campezino  matisado   de  uma    serie 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


infinita  de  encantos  variados,  symphonia  de 
de  cores,  crescendo  de  tons  quentes  que  nos 
causam  a  vertigem 
do  Bello  em  todo  o 
seu  esplendor. 

As  thermas  das 
Caldas  da  Rainha, 
onde  actualmente  me 
encontro,  conheço-as 
ha  vinte  e  nove  an- 
nos,  e  a  vagarosa 
evolução  que  tem 
soíírido,  tem  passado 
perante  os  meus 
olhos  com  um  grande 
interesse. 

Não  conheço  ter- 
ra próxima  de  Lis- 
boa que  reúna  tantos 
atractivos  como  as 
Caldas. 

Mas  terá  esta  villa 
aquelle  encanto  de 
tranquillidade  que  ti- 
nha antigamente  antes  da  chamada  civilisação 
do  caminho  de  ferro?  Decerto  que  não,  mesmo 
na  estructura  intima  da  sua  vida  a  differença 
é  radical. 

Voltemos  um  pouco  a  vista  ao  passado 
para  fazermos  melhor  o  parallelo  com  a  vida 
presente. 


TORRE    MATRIZ 


-8 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


Partia-se  de  Lisboa  da  estação  de  Santa 
Apolónia,  e  chegava-se  á  Azambuja  pelas 
1 1  horas  da  manha  ;  deligencias,  largas  car- 
ruagens, onde  podiam  levar   em   cima    duas 


UM  TRKCHO  PA  MATTA 


e  três  malas,  conduziam-nos  até  ás  Caldas, 
uma  distancia  de  dez  léguas.  As  primeiras 
povoações  por  onde  passávamos  eram  Aveiras 
de  Baixo  e  depois  Aveiras  de  Cima,  Alcoentre, 
d'ahi  a  léguas  o  lugar  do  Cercal,  onde  estacio- 
návamos duas  horas  para  almoçarmos  e  para 
descanço  do  gado. 

Ainda    me    recordo  que   nos    davam    em 
uma  estalagem,  canja  e  bella  galinha  cosida 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


i;m  híecho  das  cai.da.s,  ao  cahiu  da  takdk 


IO 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


com  arroz  e  presunto.  Hoje,  esla  estrada, 
segundo  me  consta,  está  horrível,  havendo 
apenas  transito  de  galeras. 

N'estas  thermas  não  havia  então  o  movi- 
mento de  famílias  que  se  vè  hoje ;  o  máximo 


A    BERLINDA 


meia   dúzia,  formando  todas  uma  só  familia, 
sem  os  cancans  que  nos  atormentam  agora! 

A  vida  que  se  passava  era  a  seguinte  :  de 
manhã,  tratamento  no  hospital  onde  havia  o 
tradicional  copinho  dado  pelo  velho  Sebastião 
que  Deus  tem ;  durante  o  dia,  no  passeio  da 
Copa,  jogava-se  o  arquinho,  as  senhoras  co- 
siam e  bordavam :  mais  tarde  houve  um  jogo 
de  Croquet  devido  á  iniciativa  da  familia  Bar- 
ros Lima  e  José  Sacavém. 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


II 


Também  havia  o  jogo  da  malha,  e  ainda 
me  recordo  de  ver  o  falecido  escriptor  Luciano 
Cordeiro  joga-la  com  enthusiasmo.  Tempos 
que  não  voltam  ! 


o  CANTAR  DAS  LOAS 


Depois  de  jantar,  que  era  por  volta  das 
cinco  horas,  ia-se  á  matta  real,  uns  subiam 
ao  pinheiro  da  Rainha,  outros  espalhavam-se 
pelas  ruas  a  jogarem  jogos  de  prendas  e  arqui- 
nho s. 

Quando  a  noite  vinha  já  bastante  próxima, 
todos  desciam  ate  ao  club,  onde  se  dançava 
animadamente  até  ás  dez  horas,  sendo  então 


12  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

servido  o  conhecido  e  tradicional  chá  com  fa- 
tias e  bolachas,  alem  de  copos  com  agua  cha- 
lada.  Este  chá  era  fornecido  pela  direcção  do 
Club,  sendo  digno  de  elogios  pelo  asseio  e 
abundância. 

Aos  sabbados  então,  antes  do  club,  entra- 
va-se  na  egreja  do  hospital  onde  se  cantava 
a  ladainha  e  vários  cânticos  á  Virgem  do  Po- 
pulo  (*);  diversas  senhoras  cantavam  no  coro, 
nunca  faltando  o  conhecido  padre  António 
d'Almeida,  hoje  residente  em  Óbidos,  que  alem 
de  ser  um  eximio  caçador  de  perdizes,  possuia 
uma  agradável  voz  de  barvtono. 
-^  No  dia  I  5  de  agosto  havia  festa  rija  n^csta 
egreja,  pregava  geralmente  o  padre  António. 
Os  cantores  é  que  tiravam  a  Fé  ao  maior 
crente,  eram  músicos  da  philarmonica ;  poderá 
o  leitor  avaliar  que  serie  de  desacatos  musicaes 
elles  nos  oíTereciam  aos  nossos  ouvidos ! 

O  conhecido  Céu  de  vidro  d'hoje,  era  anti- 
gamente um  modesto  corredor  entre  os  dois 
corpos  do  club,  tendo  apenas  por  tecto  a  abo- 
boda  celeste,  seria  menos  commodo,  mas  era 
muito  mais  poético.   N'essa  noite  era  coberto 


(*)  Foi  n'esta  egreja  que  no  anno  de  lõQá  foi  representado 
Tim  coito  de  Gil  Vicente  o  de  S.  Martinho,  pedido  feito  pelos  ha- 
bitantes das  Caldas  em  honra  da  rainha  D.  Leonor,  então  viuva 
de  D.  João  II,  que  se  encontrava  nas  Caldas  O  auto  è  pequeno 
e  Gil  Vicente  pôz  a  seguinte  rubrica  :  «Xão  foi  mais  porcpie  foi 
l^eãido  muito  tarde».  O  auto  é  uma  alusão  á  caridade  da  rainha 
sendo  esta  obra  talvez  a  i^rimeira  representada  fora  do  j^aço 
6  da  corte. 


ÉM  TERIAS  DE  PORTUGAL 


por  um  toldo,  e  transformavam-no  em  um  jar- 
dim, lodo  illuminado  a  copos  de  Cíjres.  Hoje, 
como  disse,  é  uma  passagem  envidraçada, 
ponto   de  reunião  para  a  tná  lingua  e  para  os 


o  CAURO  DOS  AXJ03 


namoros^  para  estes  nâo  é  bem  um  ceu  de 
vidro,  mas  um  ceu  aberto. 

Havia  muitos  passeios  em  burros  a  S.  Mar- 
tinho do  Porto,  ás  Gaeiras,  Óbidos  e  de  car- 
ruagem a  Rio  Maior,  e  quando  chegavam  a 
esta  villa  eram  sempre  entradas  iriumphantes 
com  marchas  aux-flambeaiix,  guitarradas,  etc. 

Hoje  a  vida  das  Caldas  é  totalmente  diffe- 


í4 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


rente ;  o  caminho  de  ferro  veiu  lançar  a  nota 
do  modernismo,  a  concorrência  augmentou 
extraordinariamente.  O  Parque  da  Copa  e  a 
Matta  soífreram  com  o  administrador  Berquó 
profundas  modificações  ;  vieram  os  sextettos 
substituir  o  velho   Pavão   que   executava  no 


A    CHEGADA  DO  CYKIO 


piano  umas  palsas  horríveis  e  uns  lanceiros 
detestáveis,  veio  a  antiga  Banda  da  Guarda, 
em  vez  da  philarmonica  da  terra,  appareceram 
o  Tennis^  o  jogo  da  bolla,  Fooi-^all,  os  con- 
cursos hypicos,  etc. 

Uma  antiga  cavacaria  das  conhecidas  Men- 
dricas  que  existia  na  Praça,  ponto  de  reunião 
á  tarde  e  á  noite  de  amena  cavaqueira  onde 
se  juntavam  entre  outros  Mariano  Pina  e  Ra- 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


phael  Bordallo,  acabou !  Raphael  Bordallo, 
com  o  seu  grande  talento  e  fino  conversador 
fazia-nos  passar  alli  horas  agradabilíssimas. 

No  mez  de  setembro  havia  a  tradicional 
passagem  dos  cyrios  para  a  Nazareth. 


ASPECTO  DO  MERCADO 


Eram  três,  o  das  Caldas,  o  da  Prata 
Grande  e  o  d'Obidos.  Tanto  na  ida  como  na 
volta  os  cyrios  davam  três  voltas  á  roda  da 
Praça  e  iam  ao  largo  da  Copa,  em  frente  da 
porta  do  hospital,  cantar  as  Loas.  Somente  o 
d'Obidos  é  que  não  cumpria  ás  vezes  estes 
usos,  atravessava  a  villa  e  nada  mais !  Se- 


l6  ÉM  TERRAS  DE  PORTÍJGAt 

gundo  me  disseram,  por  causa  de  certas  riva- 
lidades entre  as  duas  villas.  Como  curiosidade 
eis  algumas  Loas  (*")  cantadas  pelos  anjos  dos 
cyrios : 

i."  Anjo 

Parece  que  nossos  pães 
Nos  dizem  a  rijos  brados 
As  vossas  crenças  sagradas 
Não  per  cães,  filhos  amados. 

2°  Anjo 

A"  Lusa  Sião  !  batei 

As  sendas  que  já  batemos 

Dai  ao  palácio  da  Pátria 

As  honras  que  nós  lhe  dêmos. 

3."  Anjo 

E  nossas  cinzas  lançadas 
Debaixo  da  terra  fria, 
Volvendo-se  reanimadas 
Palpitarão  de  alegria. 

Todos 

Corramos  ó  caldenses,  vamos  já, 
No  mais  vivo  transporte  d'alegria, 
Eender  divinas  graças  a  Maria, 
Que  por  nós  esj^erando  está. 


(*;  o  As  Ldas  são  ainda  persistentes  nas  romarias  chamadas 
Cyrios  ;  junto  da  ermida  do  Cabo,  existe  uma  edificação  cha- 
mada a  Opera,  onde  o  Cvrio  de  Lisboa  fazia  varias  representa- 
ções, de  que  falia  Eibeiro  Guimarães ;  á  chegada  dos  forastei- 
ros ao  adro  da  egreja,  e  na  entrega  da  bandeira  aos  festeiros  do 
anno  futuro,  os  três  Anjos  que  os  acompanham  recitam  Loas, 
com  versos  apropriados  e  que  i^rovocam  lagrimas.  A  Loa  é  já 
uma  espécie  de  bando  ou  jjregão,  como  o  Cri,  do  antigo  theatro 
francez.» 

(Eschola  de  Gil  Vicente  por  Theophilo  Braga,  pag.  529), 


ÈM  tERRAS  DE  PORtUCÁL 


í? 


Terminadas  as  Loas,  a  musica  executava 
o  hymno  nacional,  estalavam  foguetes  e  o 
cyrio  continuava  na  sua  derrota. 

Hoje  todos  estes  costumes  caracteristicos 


o  SOBREIRO  DA  FEIRA 


do  povo  foram  prohibidos,  e  apenas  ficaram 
umas  pobres  e  modestas  festas  de  egreja. 

Emíim  se  esta  terra  se  parece  agora  com 
tantas  outras^  perdeu,  quanto  a  mim,  o  seu 
antigo  encanto,  pois  passou,  infelizmente,  a 
ser  um  bairro  da  nossa  capital,  no  luxo  dema- 
siado das  senhoras  e  nos  cancans  habituaes  da 
nossa  sociedade. 


l8  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

Sinto  saudades  d'esses  tempos  passados 
que  jamais  voltam.  .  . 

Ah !  pensarmos  no  passado  é  sempre  uma 
dôr  para  a  nossa  alma.  Passam  perante  nós, 
como  imagens  sagradas,  figuras  e  factos,  tudo 
revive  perante  o  pensamento,  e  o  nosso  íntimo 
confrange-se,  quando  cahimos  no  presente,  na 
realidade !  ÍUusóes  que  se  desfolham  como  as 
flores  estioladas  pelo  correr  do  tempo,  um 
mundo  que  foi  realidade  e  que  é  apenas  agora 
uma  serie  de  visões  semi-apagadas. 


lí 


Em  plena  soalheira. 

Dias  de  sol  claro,  como  existem  em  terras 
portuguezas. 

Por  todo  o  campo  uma  luz  cspalha-se 
cheia  de  intensidade,  havendo  nos  casaes,  nas 
fazendas,  nos  atalhos,  iníinitas  maravilhas  de 
tonalidades  de  cores,  em  que  as  sombras  se 
alongam  em  formas  variadas  e  caprichosas. 

N^aquellas  horas  a  natureza  reveste-se  de 
esplendor,  que  já  começara  no  raiar  da  aurora 
e  que  em  breve  declina  no  crepúsculo  da  noite. 

Varias  estradas  partem  das  Caldas,  como 
a  d'Obidos,  Foz  do  Arelho,  Rio  Maior,  S. 
Martinho  do  Porto,  etc,  mas  nenhuma  tem 
para  mim  o  encanto  da  estrada  que  liga  esta 
villa  com  o  lugar  do  Couto,  alongando-se 
depois  até  á  povoação  Sallir  dos  Mattos.  : 

Qual  caminheiro,  absorvendo  na  alma. 
todas  aquellas  variedades  que  o  campo  me, 
oííerecia,  sahi  das  Caldas  quando  o  sol  lan- 
çava cheio  de  vigor,  os  raios  sobre  a  terra. 

Ao  principio  a  estrada  serpenteia  uma 
pequena  collina,  íicando  á  direita,  encostas  de. 


iO  ÉM  tERRAS  DE  PORTUGAL 

vinhas,  á  esquerda  um  pequeno  valle  que  se 
alonga  em  vastos  campos  onde  fica  a  villa  das 
Caldas ;  a  nossa  vista  muito  ao  longe,  divisa 
um  trecho  de  S.  Martinho  e  os  morros  da 
entrada  da  bahia. 

Depois  a  estrada  desenha-se  plana  entre 
campos  de  vinha  e  pinhaes,  onde  aqui  e  allí 
diversas  casitas  muito  brancas,  ostentando  nos 
telhados  abóboras  còr  de  ouro,  que  mais  pare- 
cem ninhos  de  princezas  encantadas,  chamam 
a  nossa  imaginação  a  vaguear  nos  labyrinthos 
da  phantazia. 

Quem  não  quizer  seguir,  como  eu,  este 
lanço  de  estrada  tão  conhecido  para  mim, 
pode  retomar  a  estrada,  então  plana,  metten- 
do-se  por  uma  azinhaga  que  íica  logo  ao  sahir 
da  villa,  depois  de  se  encontrar  um  grande 
tanque  onde  geralmente  um  grupo  de  lava- 
deiras batem  roupa  branca  de  neve,  ao  som 
de  canções  simples,  mas  de  rythmo  agradável 
e  melódico. 

A  natureza  jazia  em  uma  tranquillidade 
mysteriosa,  e  atravez  d'aquella  azinhaga  assom- 
breada,  a  passarada  chilreava,  voltejando  de 
ramo  em  ramo,  misturando-se  com  as  vozes 
dos  homens  que  andavam  na  cava  d'um 
campo  próximo.  Uma  ou  outra  borboleta 
voejava  por  entre  os  silvados. 

Quasi  a  meio  d'este  caminho,  como  reti- 
rado, escondido,  existe  construído,  um  pe- 
queno monumento  até  agora  despresado.  Faz 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


21 


recordar  ás  gerações  futuras  um  acto  de  gra- 
tidão de  uma  cura  realisada  com  um  veio  de 
agua  férrea  que  alli  corria  antigamente  em 
abundância. 


.Mu^U.Mt,^lu  DA  AZINHAGA. 


Hoje  a  agua  encontra-se  desviada  por 
causa  de  umas  escavações  que  alli  fizeram. 

Até  a  este  anno  o  monumento  tinha  per- 
manecido em  um  estado  de  porcaria  extraor- 
dinária, hervas  cresciam  por  toda  a  parte,  a 


22 


EM  TKRRAS  DE  PORTUGAL 


inscripção  quasi  desapparecida,  emfim  o  nosso 
chronico  desleixo. 

Porém,  ha  dias  quando  por  lá  passei  tive 
a  agradável  impressão  de  ver  ludo  restaurado 
e  limpo! 

Não  posso  deixar  de  fallar  aqui  no  sr. 
Eduardo   Neves,  presidente   da   Gamara   das 


CAPKLLA  Dli  8.  JACYKTllO 


Caldas,  que  cheio  de  interesse  cuidou  d'este 
monumento,  sempre  despresado  até  a  esta 
data ! 

O  monumento  é  feito  de  pedra  e  cal  tendo 
talvez  dois  metros  d'altura,  vendo-se  na  frente 
a  seguinte  inscripção : 


DA  EXFERMA  HUMANIDADE  A  BEXEBUCIO 
EM  MEMORIA  DO  BEM  JÁ  ALCANÇADO 
FOI  ESTE  PERDURÁVEL  MONUMENTO 
POR  BENÉFICA  JÍÂO  AQUI  VOTADO. 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


23 


24 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


TANTO  PODE  A  GRATIDÃO 

E  DE  BEM  PUBLICO  O  ZELO 

PRAZA  AOS  CÉUS  QUE  HUM  TAL  EXEMPLO 

SIRVA  AOS  MORTAES  DE  MODELO. 

1819 

Ignoro  o  nome  da  pessoa  que  o  mandou 
edificar;   tendo   pedido   a   dois   amigos  meus 


FONTE  DE  SANTA  KITTA 


para  investigarem  nos  archivos  da  Camará 
qualquer  documento  elucidativo  nada  se  tem 
encontrado.  Apenas  soube  depois  que  a  ins- 
cripção  foi  feita  por  Agostinho  Paulo  d'An- 
drada  Mendóça. 

No    trajecto   até   ao   Couto,   encontramos 
digno  de  nota  a  Fonte  de  Santa  Rita,  sempre 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


25 


muito  caiada  de  branco,  tendo  em  um  nicho  a 
imagem  da  santa.  Mais  adiante  a  quinta  do 
Arieiro,  com  magnifica  nascente,  e  próximo 
do  lugarejo,  semi  escondida,  entre  campos  de 
vinha,   isolada,   uma   capella,  cujo  patrono  é 


UMA  RUA    DO  COUTO 


S,   Jacyntho,  tendointeriormente  magnificos 
azulejos. 

O  lugar  do  Couto  é  muito  curioso  pelo 
lado  rústico,  quasi  selvagem  'que  apresenta ; 
apenas  uma  rua  central,  andando  em  plena 
liberdade  galinhas,  patos  e  porcos.  Vários 
becos    cheios    de    estrumeiras    encontram-se 


26 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


d'um  e  d'outro  lado  da  rua  central.  As  casas 
em  relação  á  hygiene  das  ruas.  As  mulheres 
são  feias  e  tisnadas  pelo  sol,  e  durante  o  dia, 
emquanto  andam  pelas  fazendas  no  labutar 
quotidiano^,  deixam  as  crianças  no  lugarejo 
também  em  pleno  convivio  com  os  animaes ! 


A    CAPELLA  DO  fOUTO 


Existe  no  Couto  o  typo  de  mendigo  que 
anda  de  porta  em  porta  esmolando,  e  conforme 
é  a  importância  da  espórtula  assim  elle  canta 
mais  ou  menos  tempo.  Tem  a  perfeita  vida 
de  vagabundo,  recebendo  agasalho  d'esta  po- 


bre gente. 


A  ermida  é  junta  ao  cemitério,  ficando  no 
fim  do  lugar.  Tem  um  aspecto  modestíssimo, 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL  27 

na  frente  um  terreiro  d'onde  se  avista  um 
grande  valle,  tendo  ao  fundo  uma  cadeia  de 
serras,  e  muito  ao  longe  espalhadas  diversas 
povoações  como :  Casaes  da  Ponte,  Sallir  dos 
Mattos,  Cruzes,  Guisado,  Casal  da  Areia, 
Torre,  Barrantes,  Infantes,  etc. 


PKAIA  L>E  S.  MARTINHO 


Já  a  noite  se  avisinhava  quando  deixei 
aquelles  sitios.  O  modesto  sino  da  ermida  ba- 
dalava sons  das  Ai^e  Marias;  por  toda  aquella 
região  houve  uns  certos  instantes,  em  que  a 
nossa  alma  se  elevou  a  regiões  sagradas. 

Uns  trabalhadores  que  ao  longe  cavavam, 
pararam  de  trabalhar  e  ficaram  como  suspen- 
sos ouvindo  aquelles  sons  que  echoavam  pelos 
campos. 


28  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


Então   á   minha  memoria  vieram  aquelles 
notáveis  versos  de  Lamartini,  o  Isolemeul: 


«Cependant,  s'élauçant  de  la  flèche  gothique, 

Un  sou  religieux  se  rèiíand  dans  les  airs: 

Le  voyageur  s^arrête,  et  la  cloche  rustique 

Atix  derniers  bruits  du  jour  mele  de  saints  concerts." 


O  sol  no  horizonte  rubro  de  fogo  despe- 
dia-se  da  terra  passando  para  outros  mundos. 

Pastores  passavam  com  os  rebanhos  em 
direcção  ás  arribanadas,  levantando  nuvens 
de  poeira. 

Assim  toda  a  paysagem  ia  desapparecendo 
pouco  a  pouco  em  sombras  envolventes  de 
mystcrio. 

A  noite  veiu  beijar  a  terra  e  o  silencio 
reinou  profundamente  em  toda  aquella  região 


III 


Eqi  pleno  campo,  quando  o  sol  despontava 
no  horizonte  e  vinha  encher  de  luz  os  prados 
períumados  e  os  valles  floridos,  já  eu  estava 
lendo  á  janella  do  meu  quarto  um  artigo  de 
Emílio  P^aguet,  referente  a  ferias  de  estudan- 
tes. O  illustre  escriptor,  fallando  do  mez  de 
setembro,  diz :  ^<^Je  liii  voudrais  iin  joii  uoni, 
faíl  de  joie,  d'abondance,  de  grace  plauíiireuse 
et  d'un  commencemeut  seulement  de  mélancolie 
doitce  » 

Se  Emilio  Faguet  conhecesse  o  mez  de 
setembro  n'esta  região,  chamar-lhe-hia  o  mez 
da  Luz  ,  pois  toda  esta  paysagem  é  illuminada 
de  um  tal  brilhantismo  de  sol,  que  as  estradas 
e  regatos  assemelham-se  a  filas  de  prata  muito 
brancas  que  se  alongam  dolentemente. 

A  natureza,  os  contornos  das  arvores,  os 
lugarejos  espalhados  ao  longe  nas  encostas 
dos  outeiros,  iam  apparecendo,  pouco  a  pouco 
e  a  luz  ténue  da  madrugada  ia  cedendo  o  lugar 
a  outra  mais  scintillante,  conforme  ia  subindo 
no  horizonte  o  grande  astro  da  vida. 


3o  EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 

Uma  ave  passou  piando  perdendo-se  de- 
pois de  vista  para  o  outro  lado  da  montanha, 
e  tive  vontade  de  lhe  perguntar  como  em  uns 
versos  de  Xavier  de  Maistre  : 

«Parle-moi  du  bruit  des  torrents, 
Des  lacs  profonds,  des  frais  ombrages, 
Et  du  murmure  des  feuillages 
Qu'agite  Phaleine  des  vents,» 

Deixei  por  momentos  o  livro  que  estava 
lendo,  e  pensei  em  todos  aquelles  que  não 
comprehendem  as  mil  variedades  de  attracti- 
vos  que  o  campo  encerra. 

No  campo  a  nossa  alma  expande-se,  e  seja 
artista  ou  não,  ha-de  por  força  reconhecer  o 
encanto  do  Bello,  que  alli  está  vincado  nos 
menores  detalhes,  n'esses  pequenos  nadas  que 
são  sempre  grandes  paginas  do  glorioso  livro 
da  creação. 

Para  què  nega-lo?  Não  nos  sentimos  pe- 
quenos, verdadeiros  pygmeus,  quer  nos  encon- 
tremos perante  uma  grande  montanha,  ou  na 
frente  d'um  abysmo  profundo  ?  ! 

As  arvores  seculares  com  as  suas  copas 
frondosas  espalhando  sombras  benéficas  e 
agradáveis,  onde  as  aves  se  aninham  quando 
a  noite  chega  e  d'onde  com  os  seus  gorgeios 
louvam  o  romper  da  aurora,  não  serão  revela- 
ções do  poder  do  Creador? 

As  azinhagas,  os  atalhos  floridos,  os  rega- 
tos cheios  de  írescura,  as  fontes  murmurantes. 


EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 


3i 


não  indicarão  um  grande  poder  suggestivo  ao 
pintor,  ao  musico,  ao  poeta,  atra  vez  da  gamma 
das  cores,  da  combinação  dos  sons,  da  escolha 
das  rimas? 

O  meu  pensamento  ia  assim  divagando  e 
o  sol  já  alto  illuminava  de  tal  intensidade  os 


ESTRADA  DO  AYENAL 


campos,  que  toda  a  paysagem  se  fundia  agora 
cm  uma  symphonia  de  colorido  intenso,  como 
se  quizesse  revelar  ao  meu  pensar  que  se 
achava  revestida  do  seu  manto  de  brilhan- 
tismo, para  a  admirar,  e  lhe  prestar  preito  e 
homenagem. 

Sahi  para   poder  respirar  melhor  aquelle 
ar   matutino   perfumado  pelas  singelas  fiôres 


32  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

dos  atalhos,  e  embrenhar-me  por  aquelies 
pinhaes  assombreados  e  atapetados  de  espessa 
caruma. 

Toda  a  atmosphera  eslava  luida  por  uma 
leve  brisa  que  corria  mansamente. 

Gente  que  passava  dava-me  os  bons  dias, 
com  aquelie  aspecto  de  ingenuidade  que  não 
se  encontra  nas  cidades. 

Os  topos  dos  pinheiros  rangiam  ao  vento, 
e  sons  de  vozes  chegavam  aos  meus  ouvidos, 
semi-confusas. 

Das  chaminés  das  casas,  brancas  como 
noivas,  subiam  espiraes  de  fumo  que  se  ele- 
vavam pelos  ares;  eram  os  primeiros  lumes, 
iniciavam-se  os  primeiros  labutares  dos  lares, 
d'aquella  gente  pobre,  humilde,  de  corações 
singelos  e  simples. 

Os  trabalhadores  no  campo  accendiam  os 
lumaréos  entre  duas  pedras  que  sustinham 
uma  negra  pannela  cheia  de  caldo  fumegante. 

Em  todas  aquellas  almas  rústicas  havia  o 
estigma  da  simplicidade,  despido  de  conven- 
cionalismos  sociaes.  Todo  o  dia  labutam  e  a 
terra  que  lhes  absorve  o  suor  do  rosto,  é  a  sua 
segunda  mãe.  E'  o  torrão  que  os  viu  nascer, 
que  lhes  amparou  os  primeiros  passos  e  que 
os  viu  pela  primeira  vez  chorar. 

Ha  typos  no  nosso  campo  que,  vistos  uma 
vez,  jamais  se  olvidam.  Maria  Angela  está 
n'este  caso. 

Maria  Angela  ? !  perguntará  o  leitor,  admi- 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


35 


PlNfitAL  DA  COPA 


34  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

rado  de  vir  fallar  aqui  d'Lima  pobre  creatura, 
quando  o  meu  pensamento  divagava  pelas 
regiões  da  phantazia! 

E'  que  Maria  Angela  encarna  na  alma 
o  soífrimento  mais  nitido,  mais  característico 
da  tristeza,  da  saudade,  acariciada  apenas  por 
essa  fazenda,  por  esse  rincão  de  oliveiras  lá  ao 
longe  junto  ao  rio. 

Maria  Angela  era  considerada  a  moçoila 
mais  formosa  do  seu  tempo ;  ainda  hoje  existe 
o  José  Vicente,  barbeiro,  que  attesta  que  fez 
andar  á  roda  muitas  cabecitas  da  sua  moci- 
dade. 

Hoje...  são  apenas  restos  de  formosura 
passada ;  desgostos  vieram  uns  apoz  outros  e 
os  annos  foram  pouco  a  pouco  decompondo 
aquellas  linhas  do  rosto,  dos  peitos,  das  ancas, 
restando  apenas  o  olhar  cheio  de  carinho  e 
bondade. 

Quando  nova,  o  seu  casamento  com  o 
Manuel  da  Quinta  foi  origem  de  festa  rija  na 
aldeia,  o  sino  da  capella  repicou  todo  o  dia! 
Se  ella  era  a  mais  linda  do  lugar! 

O  marido,  passados  annos,  morreu  de  fe- 
bres, deixando-a  abandonada  com  três  filhi- 
nhos, que  ella  foi  amparando  á  custa  de  duras 
economias  até  se  fazerem  homens.  Mas  a  des- 
graça de  Maria  Angela  não  ficou  por  aqui, 
parece  que  uma  estrella  funesta  a  acompa- 
nhava sempre ! 

O  mais  velho,  o  António,  como  militar, 


EM  TRRRAS  DK   PORTUGAL 


lá  morrera  nas  Africas  defendendo  como  um 
heroe  a  bandeira  da  sua  querida  Pátria ;  o  do 
meio,  o  José,  suicidára-se  por  causa  da  mulher 
que  o  enganava ;  o  mais  novo,  o  Thomé,  atra- 
vessara-lhe  o  peito  uma  bala,  por  engano, 
n'uma  desordem  em  um  arraial. 

Todas  estas  dores  reunidas  formaram  a 
maior  tortura  da  sua  alma. 

Os  annos  passaram  e  hoje  a  Maria  Angela, 
longe  do  mundo,  orando  apenas  pelos  seus 
que  Deus  lá  tem,  ampara  conforme  pode  os 
desgraçados  que  á  sua  porta  batem. 

Maria  Angela  é  caritativa  como  a  terra 
que  ella  amanha;  esta  dá-lhe  trigo,  centeio, 
milho,  para  a  desgraçada  repartir  pela  pobre- 
za; e  parece  que  as  lagrimas  dos  pobresinhos 
que  ella  acolhe  lhe  vão  regar  a  fazenda,  pois 
esta  está  sempre  tão  viçosa ! 

Pelo  menos  é  a  lenda  que  corre  pela 
aldeia.  .  .    e  não  será  agradável  acreditarmos 


n'ella  ? 


IV 


As  chuvas  ultimamente  cabidas  deram  aos 
campos  o  aspecto  d'um  grande  vergel  perfu- 
mado, em  que  os  tons  verdes  de  variadas  to- 
nalidades palpitam  cheias  de  viço  e  frescura. 

As  oliveiras,  carvalhos,  plátanos,  choupos, 
mais  além  os  valados,  muito  limpos  da  poeira, 
apresentam  no  seu  aspecto  uma  alegria  incons- 
ciente que  o  homem  adivinha  pelo  prisma  da 
sua  analyse. 

Os  pinheiraes  desprendem  de  si  um  per- 
fume vivificante ;  as  fontes,  os  regatos,  as  ver- 
tentes dos  montes,  são  sagradas  imagens  de 
aspectos  difterentes  da  natureza  quando  esta 
se  recama  de  toda  a  força  de  Belleza  trans- 
cendente. 

Lá  ao  longe  passam  rebanhos  para  o 
pasto;  caminham  na  sua  tranquillidade  habi- 
tual e  monótona,  ao  passo  que  o  pastor  os 
vae  conduzindo,  tocando  na  avena  rústica 
o  thema  de  qualquer  canção,  desabrochada 
na  sua  alma  simples  e  ingénua. 

Para  mim  o  pastor  é  um  symbolo  de  sim- 
plicidade. O  rapazola  que  conduz  o  gado  todo 


38  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

O  dia,  que  vive  isolado,  pelas  charnecas  em 
fora,  possue  um  alto  grau  de  poesia  campe- 
zina,  é  uma  fonte  de  psychologia  emotiva  e 
subtil. 

O  pastor  é  um  ente  que  vive  affastado  de 
toda  a  serie  das  manifestações  do  saber  hu- 
mano, separado  da  melhor  descoberta,  alheio 
a  todo  o  alimento  intellectual  do  nosso  eu. 
O  seu  horizonte  de  pensamento  é  semelhante 
ao  visual,  acanhado  e  curto,  tendo  por  limites 
o  ceu  que  o  cobre  e  a  charneca  immensa  que 
elle  pisa  sob  os  raios  do  sol. 

Se  fallarmos  ao  pastor  na  menor  desco- 
berta, responderá  por  uma  gargalhada,  sem 
mesmo  comprehender  as  palavras  que  lhe  diri- 
gimos. E  essa  gargalhada  franca,  não  será 
svmptoma  de  estupidez,  mas  o  signal  de  uma 
-intelligencia  inculta. 

No  pastor,  apesar  de  desconhecer  a  exis- 
tência, no  que  ella  possue  de  mais  bello  dentro 
da  sua  razão  de  ser,  como  nós  a  conhecemos, 
vemos  n'elle  o  protótipo  do  artista  em  em- 
bryão ! 

O  pastor  é  artista  de  nascença,  foi  o  meio 
campezino  que  lhe  dictou  na  alma  uns  limi- 
tados princípios  de  esthetica. 

O  murmúrio  das  fontes,  o  chilrear  das 
aves,  o  ranger  das  arvores  pelo  vento  da  tem- 
pestade, o  scenario  que  os  campos  lhe  apre- 
sentam quando  lhe  mostram  a  mistura  irregular 
das  diversas   cores   da  carvalhiça,   dos  pilri- 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


39 


teiros,  do  tojo,  da  carqueja,  do  rosmaninho, 
do  carrasco,  das  giestas  e  outras  plantas  cam- 
pezinas,  tudo  desperta  n'elle  a  ideia  do  Bello, 
d'uma  forma  rudimentar,  pois  que  o  ignora^ 
mas  que  o  dispõe  a  possuir  uma  alma  embe- 


bida sempre  n'uma  espécie  de  Belleza  ainda 
que  pura,  ingénua  e  simples. 

Quando  elle,  no  cimo  de  um  outeiro,  iso- 
lado, pega  da  avena,  feita  por  elle,  e  toca  uma 
canção,  não  veremos  uma  alma  vibrante  de 
sentimento  ;M 

De  tez  tisnada  pelo  sol,  cabello  desgre- 
nhado,  peito  semi-nu,  olhar  vivo,  contempla 


4o  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

carinhosamente  a  terra  que  o  viu  nascer  e 
chama-lhe  sua  segunda  mãe.  Desde  o  romper 
da  aurora  o  pastor  vae  caminhando  e  os  sons 
da  sua  flauta  rústica  echôam  pelos  valles  ca- 
vados entre  abysmos,  perdendo-se  no  grande 
espaço  onde  reina  o  silencio  apenas  quebrado 
pelos  chocalhos  do  gado. 

Eis  um  trecho  de  paysagem  que  o  pintor 
poderá  reproduzir  na  tela,  mas  por  melhor 
que  seja  a  obra  do  artista  nunca  traduzirá 
toda  a  sua  belleza  philosóphica,  nascerá  uma 
paysagem  quasi  sem  vida,  quasi  morta! 

Se  queres  leitor,  conhecer  bem  a  paysagem 
portugueza,  embrenha-te  pela  charneca,  vive 
na  existência  semi-selvagem  das  serras,  con- 
templa frente  a  frente  os  abysmos,  entra  no 
lar  do  camponez,  do  humilde  cavador,  analysa 
o  seu  labutar  quotidiano,  ouve-lhe  as  canções, 
ora  alegres  como  o  trinar  dos  pássaros,  ora 
tristes  como  o  murmúrio  das  levadas,  depois 
então  verás  como  o  artista  é  deficiente  para  a 
traduzir  no  numero  infinito  das  suas  phases 
suggestivas,  na  gamma  dos  seus  aspectos  en- 
cantadores ! 

Como  disse,  a  chuva  viera  refrescar  os 
campos  verdes^  vibrantes,  como  preciosa  esme- 
ralda. 

Do  alto  de  uma  pequena  colina  via  na 
minha  frente  um  trecho  da  villa  das  Caldas 
semi-escondida  pelas  copas  dos  arvoredos ; 
na  hnha   do  horizonte  as  areias  brancas  da 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


41 


Foz  do  Arelho  e  a  lagoa  d'Obidos,  espelhada, 
semelhando-se  a  um  triangulo  de  prata. 

A'  esquerda  mais  ao  longe,  divisavam-se 
as  ruinas  do  castello  d'Obidos,  sobranceiro  a 
todas  as  redondezas;  jaz  alli  solitário,  der- 
ruindo-se    pouco    a    pouco.;   uma   pagina   da 


PASSANDO    UM   RIBEIRO 


nossa  historia,  restos  de  uma  época  de  con- 
quistas e  heroicidades! 

Com  o  seu  aspecto  negro  e  majestoso,  de- 
senhava-se  ao  longe  em  Imhas  severas,  ser- 
vindo de  contraste  áquelle  fundo  de  paysagem 
toda  garrida  e  respirando  vida. 

Um  bando  de  pombas  brancas  sahiram  de 


42  EM  TERRAS   DE  PORTUGAL 

um  pinhal,  e  lá  foram  voando,  batendo  as  azas, 
brancas  como  a  espuma  do  mar,  leves,  muito 
leves ! 

Nos  campos  de  vinhas  alli  próximos,  junto 
ao  lugar  do  Avenal,  ranchos  de  raparigas,  es- 
palhadas aqui  e  alli,  andavam  vindimando  sob 
uma  intensa  luz  de  sol  brilhante. 

Mais  além  diversas  dornas,  em  carros  de 
bois,  estavam  quasi  cheias  de  formosos  cachos 
que  em  breves  horas  estariam  nos  lagares, 

«Les  granas  chars  fjemissants  qui  reviennent  le  soir» 

como  disse  Roujon  referindo-se  ás  vindimas 
da  Gascônha. 

Havia  na  fazenda  um  movimento  desu- 
sado; todos  traballiavam  com  afan.  Vinho 
novo!  Vinho  novo!  O  sangue  do  trabalhador! 

Entrei  na  herdade  por  uma  tosca  e  negra 
cancella  de  ripado,  um  cão  branco  com  malhas 
pretas  correu  logo  a  ladrar-me,  era  um  claro 
aviso  que  estava  em  terra  extranha. 

—  Gala-te  Fiel,  disse  uma  voz  forte  solta 
do  meio  da  vinha. 

O  animal  foi  prompto  em  obedecer  e  dei- 
xou-me  em  paz.  Apezar  de  dizerem  «cão  que 
ladra,  não  morde»  não  me  foi  muito  agradável 
a  visita  do  Fiel.  .  . 

Era  um  quadro  digno  de  vêr-se,  ao  passo 
que  o  labutar  enchia  de  alegria  aquellas  almas 
rudes  e  simples,  as  raparigas,  como  gorgeios 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL  43 

d'aves,  cantavam  quadras  como  estas  que  eu 
pude  anotar: 


Perguntei  ao  sol  se  viu, 
A'  lua  se  o  encontrou,    - 
A's  estrellas  se  souberam 
D"um  amor  que  me  deixou. 

Majaricão  da  jauella, 
Todo  bordado  aos  ramos. 
Os  diasque  te  não  vejo 
Para  mim  i^arecem  annos. 

Quatro  flores  em  meu  peito, 
Fizerami  sociedade. 
Malmequer,  Amor  Perfeito, 
O  Martyrio  e  a  Saudade. 

Eu  heide-te  amar,  amar, 
Quer  tu  queiras,  quer  não  queiras 
Eu  tenlio  por  minha  bauda 
Quatrocentas  feiticeiras. 

Subi  ao  ceu  por  uma  ameixa, 
E  desci  pov  um  cacho  d'uvas 
Ninguém  se  fie  nos  homens 
São  falsos  como  Judas. 


A  rapariga  ao  cantar  esta  quadra,  sorriu 
e  olhou  para  mim,  um  olliar  franco ;  mas  tra- 
duzindo talvez  um  pouco  de  malicia. 

Os  versos  eram  dirigidos  a  mim,  com  cer- 
teza, pois  eu  já  vinha  bastante  longe  e  ainda 
ouvia  as  gargalhadas  das  raparigas ! 


44  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

Quando  d'ahi  a  dias  encontrei  casualmente 
na  estrada  a  rapariga  dos  versos,  parecia  que 
a  sua  voz  ainda  me  dizia  aos  meus  ouvidos : 


«Ninguém  se  fie  nos  liomens 
São  falsos  como  Judas.» 


Ella  olhou  para  mim,  abaixou  os  olhos, 
corou  e  sorriu-se. 

Reconhecôra-me .  .  .  mal  sabia  ella  que  eu 
já  lhe  perdoara  ha  muito  a  injustiça. 


V 


Dias  de  chuva !  Responderás  tu,  leitor, 
muito  convicto:  «Dias  de  verdadeiro  marty- 
rio.»  Engànas-te  por  completo.  Cá  pelo  campo, 
não  existe  um  momento  que  não  seja  baíejado 
por  um  terno  lampejo  de  poesia  ideal. 

Se  toda  a  natureza  parece  desahrochar-se 
n'um  enlevo  de  alegria,  quando  bebe  sôfrega 
os  raios  do  sol,  também  em  dias  de  ceu  par- 
dacento e  de  constantes  chuvas,  os  campos 
que  se  alongam  perante  nós,  dão-nos  a  illusão 
de  um  ente  cheio  de  paciência  evangélica, 
pois  suportam  as  bátegas  d'agua,  as  fortes 
ventanias,  com  um  heroísmo  de  martyr,  sem 
o  menor  queixume !  Apenas  o  ranger  dos  tron- 
cos das  arvores  seculares,  assemelha-se  a  gar- 
galhadas de  bruxas  sabidas  das  cavernas  das 
montanhas,  e  os  ribeiros  correm  sinistros  ba- 
tendo com  violência  pelas  pedras  espalhadas 
aqui  e  alli  ao  capricho  da  sorte. 

O  ceu  rasga-se  como  por  encanto,  as  nu- 
vens acastelladas  desagregam-se,  abrem-se 
clareiras  azues,  e  raios  de  sol  beijam  as  cristas 


46  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

dos  outeiros,  os  prados,  os  campos  de  vinha, 
os  lugarejos. 

Parece  que  um  novo  dia  nasce ! 

Então  a  natureza,  sob  aquella  luz  cheia  de 
poeira  d'ouro,  apresenta  um  aspecto  como  se 
estivesse  com  um  manto  de  diamantes.  As 
gottas  vão-se  diluindo  pouco  a  pouco,  e  as 
flores  humildes^  semi-escondidas  nos  atalhos, 
parecem  que  sorriem  de  alegria. 

Abrem-se  as  portas  das  casas,  e  as  crian- 
citas  saltam  para  o  meio  da  estrada,  alegres 
como  bandos  de  pardaes. 

Em  um  casalito  lá  ao  longe,  meio  enco- 
berto por  um  pinhal,  appareceu  logo  a  Maria 
Rita  rodeada  dos  netos,  tmi  casal  de  anjos, 
como  ella  lhes  chamava. 

Por  estes  sitios  todos  conhecem  a  Maria 
Rita ;  já  tem  setenta  e  três  annos  e  está  rija 
como  ferro,  sendo  a  admiração  de  todos ! 

O  filho,  o  Manoel;,  mais  a  mulher  encon- 
tram-se  no  Brazil  a  tentarem  fortuna,  e  para 
não  deixarem  a  velhinha  sosinha  e  desampa- 
rada com  aquella  idade,  coníiaram-lhe  tempo- 
rariamente o  cuidado  dos  filhos. 

A'  Maria  Rita  custara-lhe  muito  a  partida 
do  filho  para  as  terras  da  America,  ella  bem 
sabia  que  ia  á  procura  de  melhor  futuro,  mas 
a  separação  horrível  foi  para  o  seu  coração  de 
mãe  um  sangrento  golpe,  pois  pensava  sempre 
que  jamais  o  tornaria  a  ver. 

Por  issOj  vendo  nos  netos,  n'aquellas  criaii- 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


47 


fHoupsa 


48  Em  terras  de  PORTUGAL 

ças,  ainda  o  sangue  que  lhe  corria  nas  veias, 
a  sua  dor  de  eterna  saudade  ia-se  diluindo 
por  aquelles  dois  pequenos  entes,  amparan- 
do-os  com  os  carinhos  de  avó,  com  um  amor 
terno  e  puro,  como  cristalina  era  a  agua  do 
rio  que  reflectia,  em  uma  deliciosa  miragem, 
os  elegantes  choupos  das  suas  margens. 

Depois  do  jantar  ao  meio  dia,  era  sabido 
que  Maria  Rita  se  assentava  no  degrau  da  sua 
porta,  assomhreada  por  uma  frondosa  latada, 
e  onde  um  melro,  em  uma  simples  e  singella 
gaioUa  de  canna,  lançava  alegres  cantos. 

Maria  Rita  fazia  meia,  os  netos,  sentados 
aos  pés,  olhavam  para  ella,  ávidos  de  curiosi- 
dade ;  era  também  a  hora  em  que  a  avó  lhes 
contava  varias  historias  que  ella  sabia  de  cór 
desde  os  primeiros  alvores  da  sua  juventude. 

Nunca  me  cançava  de  contemplar  aquelle 
quadro  de  familia,  que  dentro  das  suas  cores 
de  simplicidade,  dimanava  um  encanto  infinito 
de  paz  e  bondade. 

—  O'  avosmha  conta-me  hoje  a  historia  do 
macaco'^  disse  o  mais  velho  cheio  de  impa- 
ciência. 

—  Hoje  ha-de  ser  a  historia  do  castello 
encantado  que  eu  gostei  tanto,  disse  a  pequena 
beijando  muito  as  mãos  da  avó. 

—  Hoje  os  meus  queridos  netos,  terão 
uma  historia  nova  muito  bonita. 

—  Qual  ? 

—  Gomo  se  chama  ? 


EM     TEtíHÀS  DE   PORTUGAL  49 

E  as  duas  crianças  doidas  de  contenta- 
mento, batiam  com  as  mãos  umas  nas  outras, 
como  avesinhas  sacudindo  as  azitas  quando 
os  pães  se  aproximam  do  ninho. 

—  A  historia  chama-se  a  Prince{a  dos  ca- 
bellos.  de  luar;  attenção  meus  meninos. 

Fez-se  um  grande  silencio  e  Maria  Rita 
continuando  da  mesma  forma  fazendo  meia, 
com  voz  pausada  começou : 

—  Era  uma  vez  um  grande  fidalgo,  que 
vivia  no  alto  de  uma  montanha  em  um  cas- 
tello  feito  de  crystal  e  pedras  finas.  Vivia 
sosinho,  apenas  com  os  criados,  sempre  triste, 
passando  os  dias  e  as  noites  chorando  de  tris- 
teza. 

A  sua  maior  alegria  era  ter  uma  filha,  uma 
menina  muito  formosa,  que  fosse  por  sua 
morte  a  feliz  herdeira  dos  seus  domínios. 

Passavam- se  os  annos  e  D.  Gaspar  jazia 
sempre  absorvido  n'aquella  continua  angustia, 
n'aquelle  eterno  martyrio.  Porém^  uma  linda 
noite,  passando  o  velho  fidalgo  pelos  seus  bos- 
ques, gozando  o  bello  luar,  que  enchia  as  ruas 
de  sombras  movediças,  D.  Gaspar  viu  semi- 
escondida  no  bosque  uma  linda  menina  ves- 
tida de  branco;  foi  ter  com  ella  e  disse-lhe : 

—  «Que  faz  por  aqui,  tão  só  n'estes  ermos, 
de  noite  i*!» 

E  a  menina  respondeu : 

—  «Fui  despresada  pela  sorte  bemfazeja  e 
procuro  agasalho,  tenho  frio  e  fome.» 


5o  ÊM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


—  «E'  d'aqui,  d'estas  terras?  disse-lhe  o 
fidalgo,  interessando-se  muito  pela  menina. 

.  — «De  longe  venho,  dizem  que  sou  filha 
da  lua  e  ninguém  me  quer  por  ter  sempre  os 
cabellos  da  côr  do  luar.» 

—  «Não  te  afflijas,  virás  comigo  para  o 
meu  palácio  e  alli  viverás  como  uma  prin- 
ceza.» 

A  menina  ficou  muito  contente  e  foi  rece- 
bida no  palácio  com  as  maiores  honras.  Houve 
uma  grande  festa  no  castello,  os  sinos  da  ca- 
pella  repicaram,  e  a  menina  alli  viveu  muitos 
annos  em  companhia  de  D.  Gaspar  que  nunca 
-mais  teve  um  dia  de  tristeza. 

—  Ai  que  lindo,  minha  avó,  o  pae  sabe 
esta  historia  ?  disse  o  pequeno  cheio  de  curio- 
sidade. 

—  Sabe,  contei-lh'a  muita  vez,  quando  era 
pequenino  como  tu. 

—  O'  avosinha,  disse  a  pequena,  conte 
outra,  esta  é  tão  pequenina !  Olhe,  aquella  da 
filha  do  demónio.  .  .  .       . 

—  A  branca  Flor? 

—  Sim,  sim,  disseram  os  netos  em  coro. 

—  Era  uma  vez  um  grande  rei  que  tinha 
um  filho  chamado  João,  muito  jogador.  Uma 
noite  fugiu  do  palácio  para  correr  mundo  á 
procura  de  aventuras.  Chegou  a  uma  terra  e 
entrou  n'uma  casa  de  jogo,  n'essa  noite  perdeu 
todo  o  dinheiro  sendo  ganho  por  um  sujeito 
que  era  o  diabo  em  pessoa.  A'  sahida  disse  o 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


5r 


diabo  a  João  ;  ase  queres  conhecer  o  meu  pa- 
lácio, vae  á  ribeira  aqui  próxima  onde  existem 
duas  estradas,  segue  peia  mais  larga  para  en- 
contrares o  meu  palácio.  O  príncipe  assim  fez, 
porém  quando  chegou  á  ribeira  encontrou 
duas  rapari- 
gas, sendo  a 
mais  nova  mui- 
to formosa. 
João  brincan- 
do com  esta, 
fingiu  tirar-lhe 
uma  roupa,  ella 
pediu-lhe  mui- 
to para  que  lhe 
desse  o  fato  e 
que  em  troca  o 
auxiliaria,  lin- 
tão  aconse- 
Ihou-o  a  que 
seguisse  pela 
estrada  mais 
estreita,  pois 
pela  mais  larga 
seria    morto. 

ttOlhe,  disse  a  rapariga,  eu  sou  filha  do  dono 
do  palácio  e  chamo-me  Branca  Flor,  não  lhe 
diga  que  me  falou.»  João  agradeceu  muito 
aquellas  boas  palavras  e  poz-se  a  caminho. 
O  príncipe  esteve  bastante  dias  no  palácio  do 
demónio,  seguindo  sempre  ás  escondidas  os 


KA  VOLTA  DO  MERCADO 


52  EM  TERRAS   DE  PORTUGAL 

conselhos  da  Branca  Flor.  Um  dia  o  diabo 
disse  a  João:  aVae  a  um  cerro  com  meio 
alqueire  de  trigo  para  semear  e  no  fim  do  dia 
quero  já  ter  pão  cosido. o  ()  pobre  príncipe 
partiu  banhado  cm  lagrimas,  vendo  que  era 
impossível  cumprir  aquellas  ordens!  «Porque 
choras?»  disse  Branca  Flor;  e  o  príncipe  res- 
pondeu :  «Não  posso  cumprir  as  ordens  de  teu 
pae.»  Então  Branca  Flor,  disse  a  João  que  se 
encostasse  ao  seu  peito.  João  adormeceu  pro- 
fundamente. Então  a  filha  do  diabo  com  a 
varinha  de  condão,  fez  crescer  o  trigo^  foi  de- 
bulhado e  cosido  o  pão.  Quando  o  príncipe 
acordou  ficou  radiante  de  contente.  Como  o 
diabo  visse  que  nada  conseguia  e  tivesse  no- 
tado que  tudo  era  obra  de  Branca  Flor,  resol- 
veu mata-los.  Então  o  príncipe  e  Branca  Flor 
fugiram,  e  apezar  dos  esforços  do  demónio 
para  os  encontrar  nunca  poude  conseguir.  A 
mulher  do  diabo  disse  então:  «Quando  o  prín- 
cipe receber  o  abraço  da  mãe,  nunca  mais  se 
lembrará  de  nossa  filha.»  E  foi  certo,  porque 
o  príncipe  chegou  ao  palácio  e  esqueceu-se 
de  Branca  Flor.  Esta  desgostosa  e  triste  ficou 
morando  sosinha,  próximo  ao  palácio.  Todos 
fallavam  a  João  n'aquella  menina  tão  bonita 
que  alli  niorava  e  um  dia  o  príncipe  quiz  visi- 
ta-la. Achou-a  muito  formosa,  nias  não  a  co- 
nheceu!  Mas  Branca  Flor  bem  sabia  que  a 
culpa  não  era  d'elle  e  então  disse-lhe :  «Per- 
dou-te  o  esquecimento,  tens   bom   coração.» 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL  53 

Ficaram  ambos  muito  contentes  e  d'ahi  a 
pouco  tempo  casaram,  tendo  liavido  muitas 
festas  no  palácio   E  acabou  a  historia. 

As  crianças  riram  muito  e  pediram  á  pobre 
velha  que  desejavam  ouvir  no  dia  seguinte  a 
mesma  historia 

Se  a  avó  cumpriu  o  pedido  dos  netos, 
ignoro,  mas  é  de  crer  que  lhes  contaria  nova- 
mente. 

Ella  não  via  outra  coisa  senão  aqucUas 
pobres  crianças ! 


\'I 


Por  uma  bella  larde  de  fins  de  outubro, 
quando  a  natureza  comèç:a  a  sentir-se  triste 
como  adivinhando  os  frios  invernaes,  em  que 
as  folhas  amareladas  e  murchas  cahidas  das 
arvores  se  vão  depositando  em  montículos 
com  a  lama  pelas  valetas  das  estradas  e  pelos 
atalhos,  sahi  da  villa  das  Caldas  e  tomei  a  es- 
trada de  Rio  Maior  para  visitar  os  lugares  dos 
Mosteiros  e  Vidaes. 

O  dia  apresentava-se  como  um  parenthesis 
de  belleza  ás  semanas  seguidas  de  chuva  e 
forte  ventania  que  me  obrigaram  a  passar  os 
dias  em  casa. 

Ia  agora  respirar  um  ar  repassado  de  hu- 
midade em  que  o  cheiro  do  matto  se  apresenta 
mais  activo  e  penetrante. 

O  principio  da  estrada  guarnece  pelo  lado 
esquerdo  toda  a  matta  do  hospital,  sempre 
subindo  até  se  embrenhar  depois  em  lindos 
pinhaes  que  a  tornam  a  mais  pittoresca  das 
estradas. 

D\im  e  d'outro  lado  avistam-se  pequenas 
terriolas,  ao  longe  em  horizonte  largo  fazendas 


56 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


amanhadas  e  diversas  eiras.  Moinhos  ostentam 
altivos  as  suas  velas  brancas  que  giram  dolen- 
temente, cortando  o  ar,  gementes  como  suspi- 
ros cortados  pelas  lagrimas  da  dôr.  Pelos 
valles  e  outeiros  aquelles  sons  echoam  prelu- 
diando adágios  de  agonias  lentas. 


LM  ii:i;(  lio  11 


Caminha-se  depois  pelo  valle  de  Santa 
Cecília,  região  assombreada  por  frondosas  ar- 
vores, em  que  a  estrada  na  linha  caprichosa 
do  seu  traçado  se  alonga  em  curvas,  poden- 
do-se  gozar  a  paysagem  em  diversos  aspectos. 
A  estrada  torna  a  subir  novamente  por  entre 
campos  de  sobreiros  e  oliveiras  descendo  d'ahi 
a  pouco  para  entrar  na  ponte  da  Matoeira, 


EM  TEITRAS  DE  PORTUGAL 


5? 


VALLE  DE  SANTA  CECÍLIA 


58 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


Aqui  OS  campos  mudam  de  aspecto,  a  na- 
tureza reveste-se  de  novas  galas,  acabam  os 
pinhaes  e  lanços  de  estrada  são  assombreados 
por   altos   choupos  e  cucalyptos ;  campos  de 


t-^^r^r^FST^- 


ARCO  DA  MLMoKlA 


vinha,   oliveiras   e   carvalhos  acompanham  a 
estrada  até  Mosteiros  e  Vidaes. 

A  povoação  dos  Mosteiros  é  insignificante, 
casas  com  aspecto  pouco  limpo,  e  outras  des- 
habitadas  com  as  janellas  cerradas,  vidros  par- 
tidos, etc. !  A  capellinha  é  bastante  rústica  com 
porta  para  a  estrada,  mas^pelo  lado  da  lim- 


EM  TERRAS  DE  I'ORTUGAL 


59 


ESTKADA  DOS  VIDAES 


6o  EM  TERRAS   Dl-    PORTUGAL 

peza  forma  um  perfeito  contraste  com  o  resto 
da  aldeia. 

Já  a  povoação  dos  Vidaes  denota  maior 
importância.  Dois  prédios  bastante  grandes, 
bellas  quintas  e  magnificas  adegas.  Notei  que 
existe  n'esta  aldeia  um  certo  gosto  pelas  flores! 
A  maior  parte  das  casas  têm  á  janella  o  seu 
modesto  vaso  de  sardinheiras,  e  pelas  paredes 
trepadeiras  floridas.  Assim  o  lugarejo  reves- 
te-se  de  uma  ingénua  alegria  á  mistura  com  o 
labutar  dos  trabalhadores,  e  com  o  piar  das 
aves  que  sahem  em  bandos  das  copas  dos 
arvoredos. 

Próximo  d'esta  aldeia  no  alto  da  serra  de 
Albardos  existia  até  ha  dois  annos  o  Arco  da 
Mcmuri(T,[*)  todo  de  cantaria,  com  cinco  metros 
de  altura,  tendo  na  parte  superior  a  estatua 
de  D.  Affonso  Henriques.  Este  arco  represen- 
tava o  primeiro  marco  dos  coutos  de  Alco- 
baça. Ha  dois  annos  que  este  arco  foi  des- 
truído parte  pelo  tempo  e  falta  de  reparação, 
parte  por  mãos  de  vândalos  que  não  respei- 
tam nada,  quando  monumentos  d'esta  ordem 
deveriam   ser   guardados   e    estimados    como 


(*)  o  meu  amigo  e  distincto  sportman  o  sr.  Jorge  de  Almeida 
Lima  tendo  notado  o  abandono  a  que  estava^condemnado  tal 
monumento  histórico,  oíFereceu  á  então  Real  Assoi-iaçàn  dos  Ar- 
queólogos Porttifjuezes  iima  photographia  do  Arco  fazenda  tam- 
beni  ver  o  seu  abandono  e  ruina.  Mais  tarde  o  sr.  Jorge  ]jima  re- 
cebeu da  Associação  um  honroso  otficio  dizendo  que  tinham  sido 
dadas  serias  i^rovidencias  !  Isto  foi  no  anno  de  1910  I  Hoje  dis- 
seram-me  que  nada  existe  !  !  1 


EM  TEkftAS   DE  PÔRTUtíAL 


verdadeiras  relíquias.  Hoje  nada  existe,  se- 
gundo me  disseram,  pedras  espalhadas  aqui  e 
alli,  nada  mais !  Geral  desmasêlo  da  nossa 
gente! 

São  paginas  da  nossa  historia  que  vão 
desapparecendo  pouco  a  pouco  e  as  novas 
gerações  d'aqui  a  annos  não  terão  onde  pos- 
sam ver,  analysar  épocas  remotas,  testemunhas 
vividas  que  o  correr  dos  séculos  não  conse- 
guiu derruir  mas  que  o  fraco  senso  dos  homens 
destroe  em  poucos  annos ! 


VII 


«Oh  pátria  minha,  oh  pátria  «aicantadora, 
Antigo  alcáçar,  Óbidos  amada, 
Se  por  braço  infiel  edificada, 
Ha  séculos  da  Cruz  adorada.» 

Silve'n-a  Malhão. 


Um  dos  arredores  das  Caldas  mais  digno 
de  ser  visitado  é  decerto  a  villa  d'Ohidos. 

Óbidos!  como  este  nome  evoca  paginas 
da  nossa  historia!  Ao  entrarmos  dentro  dos 
seus  muros,  quando  percorremos  as  suas  ruas 
e  becos,  quando  analysamos  as  suas  egrejas  e 
cruzeiros,  quando  deparamos  com  seus  anti- 
gos nichos,  iliuminados  pelo  clássico  lampião 
em  ferro  batido,  quando  emíim  olhamos  para 
o  seu  castello  em  ruinas,  temos  a  impressão 
que  vivemos  em  outra  época  bem  difterente 
da  nossa ! 

E'  uma  terra  que  parece  viver  do  seu  pas- 
sado ;  dentro  das  suas  grossas  muralhas  os 
habitantes  são  descendentes  de  antigos  heroes, 
que  a  conquistaram  com  rara  bravura ;  vivem 
como  separados,  isolados  de  todos,  adorando 
um  passado  brilhante  que  jamais  poderá  mor- 


64 


ÉM  TERRAS   DE  PORTUGAL 


rer  pois  está  gravado  para  sempre  na  historia 
portugueza  ! 

A  maior  parte  das  famílias  vão  a  Óbidos, 
á  laia  de  simples  passeios,  meros  pretextos 
para  burricadas,  nada  mais ! 

Não!  visitar  Óbidos  d'esta  forma,  chega  a 
ser  um  crime  d'arte ! 

Ksta  villa  com  o  seu  suggestivo  aspecto 
antigo  é  um  constante  livro  aberto  onde  po- 


VISTA  GERAL  d'oKIDOS 

demos  colher  um  numero  infinito  de  elementos 
curiosos  para  a  nossa  vida  histórica.  Dimana 
de  si  própria  uma  constante  força  de  belleza 
tão  característica  que  não  se  assemelha  com 
as  demais  terras  d'esta  região.  Logo  que  a 
avistamos  ao  longe  coroada  pelas  torres  do 
castello,  apresenta-se  sob  um  prisma  de 
nobreza,  de  superioridade,  verdadeiramente 
altiva ! 


ÈM  tEéiiAS  DE  PORTUGAL 


65 


Não  contando  com  um  pequeno  numero 
de  casas  que  tem  construído  fora  dos  muros, 
a  villa  é  cercada  por  grandes  muralhas  com 
ameias  e  diversas  torres.  Estas  muralhas  pos- 
suem as  seguintes  portas :  da  Cerca,  da  Villa, 


o    CASTELLO    DOBIDOS 


do  Telhai  e  do  Valle.  Tanto  do  alto  do  castcllo 
como  das  muralhas  avista-se  um  panorama 
magnifico  ;  divisamos  as  Gaeiras,  Quinta  das 
janellas,  (*)  Várzea  da  Rainlia,  etc. 


(*)  Esta  quinta  è  hoje  propriedade  do  sr.  Luiz  Gama.  Diz-nos 
o  Panorama,  vol.  V,  o  seo-uiute  :  «Foi  pertencente  a  D.  José 
d' Alarcão,  filho  de  D.José  d'Alarcão  e  da  condessa  de  S.Vicente. 
Morreu  n'esta  quinta,  d'uma  cólica,  a,  21  de  julho  de  1742  o  in- 
fante D.  Fi'ancisco,  irnião  d"el-rei  D.  João  V.» 


66  EM  TEliRAS  DE  POfetUGAt 

Sobre  a  fundação  d'esta  villa  nada  po- 
demos dizer  de  certeza,  ha  quem  diga  que 
data  do  anno  de  i364  antes  de  Christo,  mas 
tudo  isto  são  meras  conjecturas.  {*)  Para  nós 
começa  a  ter  importância  apoz  1 1  de  janeiro 
de  I  148,  dia  em  que  foi  tomada  aos  mouros 
por  D.  Affonso  Henriques. 

Entrando-se  no  castello,  olhando  para 
todas  aquellas  pedras  negras  e  carcomidas 
pelas  chuvas  de  mititos  séculos  parece  que 
nos  dizem  á  nossa  imaginação  tudo  que 
sabem  e  que  presenciaram  !  E  foi  olhando  para 
aquellas  ruinas  que  ellas  me  traduziram  passa- 
gens gloriosas  da  sua  vida.  Assim  pude  sinthe- 
tisar  no  meu  espirito  alguns  factos  históricos ; 
quanto  Óbidos  foi  grande  em  lealdade  a 
D.  Sancho  II,  resistindo  cheia  de  coragem  ao 
cerco  imposto  por  D.  Aílonso  III ;  reconhe- 
cendo-lhe  depois  tal  valor  que  lhe  deu  o  titulo 
de  sempre  leal!  A  forma  como  o  rei  D.  Diniz 
cuidou   com   interesse  d'esta  villa   mandando 


(*)  Segundo  consta,  em  épocas  remotas  c-he.£2,'ou  ali  um  braço 
de  mar,  na  estrada  das  Caldas  a  'J'urres  Vedras,  perto  do  rio 
Ai-noia  que  entra  na  lagoa  d'0bidos  e  vae  desaguar  no  Oceano 
Atlântico.  'São  admira  que  os  teireuos,  atravez  dos  séculos, 
tenham  soíírido  tantas  transformações  e  que  hoje  esse  braço 
do  mar  tivesse  desapparecido.  O  chronista  Frei  Francisco  Bran- 
dão, meiado  do  século  xvii,  já  notava  que  as  areias  davam  causa 
a  obstruir-se  o  escoamento  das  aguas  lluviaes.  Diz  elle  que  o  rio 
Alfeizirão,  no  reinado  de  D.  Manuel,  podia  com  oitenta  navios 
de  alto  bordo.  No  porto  de  S.  Martinho  o  areiameuto  já  era  no- 
tável. Sobre  o  rio  Alfeizirão  devemos  notar  bastante  exagero  ! 
Por  esta  região  d"Obidos  havia  grande  numero  de  bosques 
ojide  abundavam  cervos,  javardos.  coelhos,  etc. 

O  Livro  vermelho  de  D.  Aítbnso  V  diz  que  na  lagoa  habita- 
vam e  se  criavam  Cisnes  selvagens, 


ÉM  TEÍMíÀS  de  PORTUGAL 


67 


construir  um  castello  sobre  um  enorme  ro- 
chedo, e  dando  o  senhorio  d'esta  villa  quando 
do  seu  casamento  á  sua  mulher  a  rainha  santa 
Isabel;  o  cuidado  que  teve  D.  Fernando  em 


UMA  TOKUE  ]J0  CASTELLO 


mandar  reparar  certas  muralhas  e  construir 
outras,  e  por  íim  como  esta  villa  assistiu  aos 
primeiros  tiros  entre  as  tropas  portuguezas 
aliadas  com  os  inglezes  contra  os  francezes, 
realisando-se  no  dia  seguinte,  1  6  de  agosto  de 
1808,  a  batalha  da  Roliça,  próximo  d'Obidos. 


68 


EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 


Estas  datas  vinham  á  minha  mente  umas 
apoz  outras  e  todas  aquellas  figuras  que  tanto 
illustraram  o  nome  portuguez,  passavam  rápi- 
das perante  mim  como  se  sahissem   d'aqueilas 

ruinas,  a  faze- 
rem lembrar  ás 
gerações  mo- 
dernas quanto 
foram  grandes 
e  quanio  ama- 
ram a  sua  Pa- 
trifi ! 

•  Quando  sahi 
do  castello,  era 
já  ao  cahir  da 
tarde ;  a  villa 
jazia  sobre  uma 
ténue  claridade 
crepuscuhir,  e 
o  sol  desappa- 
recia  no  hori- 
zonte, lançan- 
do as  ultimas 
resteas  de  luz 
sobre  toda  aquella  região  banhada  de  silencio 
e  paz. 

Rodrigues  Cordeiro  em  poucas  palavras 
resumiu  o  valor  da  villa  d'Obidos,  e  fê-lo  de 
uma  forma  tão  suggestiva.  que  é  quasi  um 
dever  transcrever  para  aqui  os  seus  brilhantes 
períodos ; 


UMA  PORTA  XO  CASTELLO 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


69 


«Então  era  a  lembrada  dos  reis,  hoje  é  a 
esquecida;  então  era  a  rica,  a  feliz,  a  namorada 
do  guerreiro,  hoje  é  a  decrépita,  que  ve  car- 
coiuida  e  quasi  tombada  a  sua  coroa  de  mu- 
ralhas. 


U.M  TKKCHU  DA  VII.LA 


chicomprehensiveis  destinos  humanos! 

<•  Para  nós,  que  não  podemos  ser  inditferen- 
tes  ás  glorias  da  pátria,  que  não  somos  como 
o  villão  que  passa  por  uni  homem  de  bem  sem 
lhe  tirar  o  chapeo,  porque  lhe  pê  a  face  iucar- 
quilhada  e  a  capa  velha,  que  não  somos  dos 


70 


EM  TFRRAS  DE  PORTUGAL 


que  a  matizam  ou  cobrem  d'injurias  porque  a 
vêem  descida  do  throno,  é  Óbidos  ainda  : 

«A  veneranda,  a  coeva  da  monarchia,  que 
pode  sorrir  com  desdém  para  os  que  vierem 


EGUEJA    DE  SANTA  MAUIA 


depois,  e  a  olham  sobranceiros  porque  se 
vêem  agora  mais  ricos  e  mais  considerados; 
«A  sempre  leal,  que  pode  levantar  a  fronte 
desassombrada,  olhar  para  Toledo,  e  fitar  o 
tumulo  do  infeliz  D.  Sancho  II,  como  dizen- 


EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 


71 


UVA.  K  CRUZKIRO 


72 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


do-lhe :  —  fui-te  fiel,  fui  como  a  tua  Coimbra, 
e  a  tua  Celorico,  emquanto  todas  as  outras  te 
trahiram. 

«A  nobre,  que  pode  apontar  para  os  seus 
pergaminhos,  e  desvanece-se  do  seu  brazão 
d'armas  —  uma  torre  de  prata  assente  sobre 


CAPKLLA  DAS  GAEIRAS 


rochedos,  onde  tremula  uma  bandeira  —  e  do 
seu  aqueducto,  dadiva  de  duas  rainhas  (D.  Leo- 
nor e  D.  Catharina) ;  do  seu  roqueiro  castello, 
presente  de  um  D.  Diniz;  da  sua  gloria  de 
haver  sido  escolhida  para  dote  d'uma  Isabel, 


santa  rainha  de  Portugal. 


«A  sabia,  que  pode  rever-se  em  seus  filhos 
e  mostrar  á  pátria,  a  par  dos  que  são  heroes 
pelas  armas,  os  que  pela  intelligencia  e  pela 


EM  TERRAS   DK   PORTUGAL 


7-3 


penna  não  são  menos  distinctos  —  um  António 
de  Macedo  Neto  e  Mello,  um  Fr.  António  de 
S.  Thomaz,  um  Fr.  Dionizio  Matoso,  um  Fr. 
Estevão  Annes,  um  Francisco  Vaz  Tagarro, 
um  João  Campello  de  Macedo,  um  Fr.  João  da 
Nazareth,  um  Fr.  José  de  S.  Rufo,  um  Fr.  Luiz 


o  SKNIIOK  DA  l'EL)RA 


de  Sá,  um  Fr.  Manuel  da  Cunha,  um  Fr.  Mar- 
tinho Pereira,  um  Fr.  Miguel  da  Natividade, 
uma  Josepha  d'Aiála,  e  os  Malhóes  —  illustres 
no  trato  das  musas,  distínctissimos  na  elo- 
quência do  púlpito.» 

Sim,  mais  uma  vez  direi  que  é  neccessario 
visitar  Óbidos,  analysar  a  villa  sob  um  aspecto 
de  rehquia  valiosa,  pois  tudo  possue  um  cara- 
cter antigo  que  nos  fascina.  Quando  visitamos 


74  EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

as  egrejas  de  Santa  Maria,  de  S.  Pedro, 
de  S.  Martinho,  (*)  cada  uma  com  os  seus 
quadros  de  valor,  os  seus  túmulos,  etc,  a 
nossa  alma  vibra  perante  todos  aquelles 
objectos  que  são  testemunhas  constantes  de 
tempos  passados,  épocas  em  que  fumos  gran- 
des e  notáveis. 

Na  egreja  de  Santa  Maria  ainda  pude  exe- 
cutar no  velho  órgão  um  Preludio  de  Bach,  e 
toda  aquella  musica  espalhou-se  como  por  en- 
canto por  todo  o  ambiente  sagrado  que  me  ro- 
deava ;  tive  então  a  illusão  que  um  cortejo 
d'anJos  descera  do  ceu  á  terra  para  cantarem 
a  Deus  um  hymno  de  louvor.  Fiz  soar  as  uhi- 
mas  notas  do  Preludio  e  tudo  jazeu  no\'amente 
no  silencio  continuo. 

Muito  próximo  da  villa  d'Obidos  existe 
a  egreja  do  Senhor  da  Pedra ^  digna  de  ser 
também  visitada.  E'  da  época  de  D.  João  V, 
as  obras  começaram  em  1740  e  foi  aberta  ao 
culto  em  1747.  A  parte  exterior  da  egreja  não 
foi  terminada  por  causa  da  morte  do  monar- 
cha.  A  titulo  de  curiosidade  direi  que  os  mé- 
dicos aconselharam  a  D.  João  V  os  banhos 
das  Caldas  e  logo  se  mandou  concertar  as 
estradas  e  construir  alli  palácios  de  madeira 


I*)  Esta  capella  foi  vendida  o  anno  passado  a  lueu  irmão 
Visconde  de  Sacavém  ijosé).  Foi  fundada  pela  família  Lafeta, 
natural  de  Cremoua  e  que  viveu  em  Portugal.  Tem  por  brazão 
um  castello  de  ouro  em  campo  azul.  Existem  n"esta  capella  dois 
túmulos  em  i^edra  e  varias  inscripções.  _  


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


75 


para  alojarem  a  corte,  e  foi  o  cardeal  da  Cunha 
benzer  as  estradas,  dias  antes  da  partida  do 
rei.  Apenas  a  corte  chegou  ás  Caldas,  o  rei 
recebeu  innumeros  presentes  dos  frades  de 
Alcobaça,  constando  de  69  vitellas,  194  pre- 


i^f^^.^ 


t(JI,UMBKll!A 


suntos,  182  queijos,  210  perus,  692  gallinhas, 
12  cargas  de  fructa,  26  paios  e  333  caixas 
com  doces.  D.  João  V  repartiu  este  presente 
pelos  cardeaes  da  Motta  e  da  Cunha  e  pelos 
frades  arrabidos  das  Gaeiras  mandando  a  estes 
mais  2oorooo  rs.  Ao  Senhor  da  Pedra  enviou 
10:000  cruzados  para  as  obras  da  sua  egreja. 


76 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


Direi  também  que  D.  João  V  e  a  sua  corte 
de  regresso  a  Lisboa  gastaram  na  jornada  12 
horas.  (*) 

Outro  passeio  interessante  é  a  S.  Mamede, 
Roliça  e  Columbeira,  vendo-se  no  alio  d'um 


cAi'i;i,LA  DK  í;.  ma.mi:;i>i; 


monte  um  cruzeiro  em  memoria  da  iTioric  do 
tenente-coronel  inglez  Lake  que  fallcccu  na 
batalha  entre  portuguezes  e  inglezes  contra  as 
tropas  francezas. 

A  estrada  é  muito  pittoresca  atravessando 
campos  de  vinha  e  olivèdos. 


{*>  'Portugal  ua  ej^oca  de  D.  João  V».  por  Manuel  Bernardes 
Branco. 


VIII 


Em  meia  dúzia  de  quartos  de  papel,  escri- 
ptos  sobre  uma  tosca  mesa  de  pinho  do  meu 
humilde  gabinete  d'aldeia,  venho  hoje  dizer  as 
ultimas  impressões  da  minha  estada  no  campo, 
as  quaes  me  deixaram  no  espirito  recordações 
sagradas  de  saudade. 

Não  pude,  é  certo,  deliciar  o  leitor  com 
elevadas  flores  de  cstylo,  resta-me  ao  menos 
a  consciência  a  dictar-me  que  procurei  ser 
sincero  fazendo  todo  o  possivel  em  traduzir, 
atra  vez  da  minha  prosa,  todos  os  encantos 
que  estas  regiões  me  deixaram,  momentos  de- 
liciosos, horas  de  um  conforto  moral  admirá- 
vel, dias  em  que  a  minha  alma  se  elevou  a 
lugares  de  paz  e  socego. 

E  agora  que  estou  a  deixar  d'aqui  a  horas 
estes  sitios,  mais  elles  me  despertam  no  meu 
coração  um  vago  estado  de  tristeza  illuminada 
por  uma  melancholia  infinita. 

Quando  no  comboio  que  me  transportará 
a  Lisboa,  vierem  á  minha  mente  estas  paysa- 
gens  banhadas  de  luz,  toda  esta  bôa  gente  que 
tãa  carinhosamente   me  tratou,  sentirei  uma 


78  ÈM  TERRAS  DE  PORTUGAL 

profunda  dôr,  pensando  nos  mezes  de  ausên- 
cia que  terei,  até  vir  visita-los  de  novo  e  con- 
viver com  elles. 

O  campo  é  um  livro  immenso,  que  todas 
as  vezes  que  o  folheamos  encontramos  coisas 
novas. 

Um  abysmo  rasgado  entre  duas  montanhas 
desperta  em  nós,  de  cada  vez  que  o  contem- 
plamos, phenomenos  diversos.  Um  vergel  flo- 
rido recama-se  aos  nossos  olhos  de  coloridos 
ditlerentes.  A  solitária  charneca  atapetada  de 
carqueja  em  flor,  ora  nos  dá  a  impressão  de 
alegria,  ora  nos  faz  nascer  as  ideias  de  dôr, 
de  grandeza. 

O  murmúrio  dos  rios,  o  gemer  das  fontes, 
os  cantos  das  aves,  as  canções  das  raparigas, 
as  eiras  cor  de  ouro,  tudo  emfim  nos  desperta 
uma  serie  infinita  de  pensamentos,  de  estados 
d'alma  que  ficam  gravados  para  jamais  se 
apagarem  da  nossa  sensibilidade. 

Podemos  comparar  o  campo  ás  sympho- 
nias  de  Beethoven,  pois  todas  as  vezes  que  as 
ouvimos  lhe  encontramos  compassos  novos  de 
rara  Belleza. 

Lembro-me  agora  d'uma  phrase  de  Michel 
Epuy  do  seu  brilhante  livro  sobre  o  Sentimento 
da  Natureia:  <'Pour  la  nature  surtout,  ce  qui 
frappe  douloureusement,c'est  qu'elle  est  aimée 
et  ne  le  sait  pas.-» 

Dois  dias  de  sol,  após  uma  semana  de 
chuvas,  deram-me  ensejo  de  visitar  dois  luga- 


EM  TERRAS  DE  PORTUGAL 


79 


rejos  que  não  conhecia,  Failadia  e  S.  Gregório. 

A  totalidade  da  estrada  é  lançada  atravez 
da  charneca,  dando-nos  esta  toda  a  força  da 
sua  aridez.  Mas  em  compensação,  por  momen- 
tos,  a  nossa 
vista  espraia- 
se  em  lindos 
horizontes,  ten- 
do como  fundo 
as  serras  de  Rio 
Maior,  desta- 
cando-se  com 
as  suas  cores 
azuladas,  do 
resto  da  natu- 
reza verdejante 
que  se  divisava 
levemente. 

Aqui  e  alli 
pequenas  po- 
voações dão  á 
leia  rústica  um 
lom  de  alegria 
delicada  e  sim-  fanadia 

pies. 

A  Fanadia  é  a  primeira  aldeia  que  se  en- 
contra. Meia  dúzia  de  casas  dispostas  á  beira 
da  estrada ;  ao  terminar  do  lugar  uma  capeli- 
nha interessante,  e  varias  adegas. 

Depois  da  Fanadia,  á  distancia  talvez  de 
dois  kilometroSj  encontra-se  em  um  pequeno 


8o 


EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 


outeiro  a  capella  de  S.  Gregório  dominando 

algumas  fazendas  de  vinhas,  oliveiras  e  vários 

pinhaes. 

Do  lado  op- 
posto,  sobre 
um  cerro,  um 
moinho  bas- 
tante caracte- 
rístico faz  lem- 
brar um  trecho 
de  campo  hol- 
landez. 

D'ahi  a  pou- 
co cntra-se  no 
kiiíar  de  S  Gre- 
!^ori(). 

\\  também 
bastante  insi- 
gnificante, mas 
muito  mais  pit- 
toresco  que  a 
Fanadia,  pois 
íica  situado 
n'um  alto. 
As  casas  são  demasiado  rústicas,  e  a  mór 

parte  têm  nas  beiras  dos  telhados,  renques  de 

abóboras   a  receberem  os  bellos  e  dourados 

raios  do  sol. 

Entre  as  casas,  as  costumadas  estrumeiras, 

á   solta   gallinhas,   patos,  porcos   e   até   bois ! 

Todos  em  pleno  convívio,  a  máxima  liberdade ! 


S.  GREGÓRIO 


EM  tÇRRAS  DE  PORTUGAL 


8l 


Como  nota  curiosa  :  fallando  com  um  po- 
bre velho  e  dizendo-lhe  quanto  aquelle  lugar 
íicava  distante  das* Caldas,  tão  inconveniente 
para  o  mercado  ao  domingo,  elle  olhou  para 
mim  com  "aspecto  serio  e  replicou-me : 

—  Para  nós  é  um  pouco  longe  lá  isso  é 
verdade,  mas  para  os  senhores  não  ha  longes, 


UM  MOIXHO 


esses  carros  a  fogo\  correm  como  o  raio !  O 
home  inventa  cada  uma  ! 

Conclui  então  que  os  carros  a  fogo  eram 
os  automóveis. 

Gente  rústica  e  bondosa,  almas  simples 
que  nos  encantam  sempre! 

Pela  volta,  ja  o  sol  baixava  no  horizonte 
enchendo  a  paysagem  d'uma  cor  acobreada. 


82  EM  TERRAS   DE   PORTUGAL 

A  charneca  apresentava-se  como  a  ima- 
gem da  eterna  tristeza,  da  infinita  solidão, 

A  luz  vermellia  do  poente,  vista  atravez 
dos  pinheiraes,  dava-me  a  illusão  d'um  gran- 
dioso e  phantaslico  incêndio,  da  terra  em  fogo! 

As  chaminés  das  casas  lançavam  aspiraes 
de  fumo  muito  branco,  que  se  elevava  pelos 
ares,  eram  os  últimos  lumes  do  trabalhador,  a 
hora  da  ceia,  depois.  .  .  o  somno  reparador  do 
trabalho. 

Em  todo  aquelle  ambiente  pairava  uma 
atmosphera  de  profundo  mvsterio ;  os  campos 
iani-se  cobrindo  com  o  manto  da  noite  e  atra- 
vez das  sombras  cada  vez  mais  carregadas 
tive  a  illusão  que  o  campo  se.povoava  de  figu- 
ras phantasticas,  almas  errantes.  Imagens  pas- 
savam perante  mim  como  sombras  sinistras  da 
Dôr  humana,  e  na  minh'alma  reflectia-se  toda  a 
melancholia  da  Natureza,  todo  aquelle  crepús- 
culo sempre  triste  da  noite. 


No  dia  seguinte  voltei  ao  lugar  do  Couto, 
ao  casal  da  Serralheira  para  assistir  a  uma 
festa  bastante  sensibilisadora ,  festejava-se  o 
centenário  de  uma  velhinha  que  nascera  a  6 
de  outubro  de  iSij.  Chama-se  Mariana  Rosa 
Alves  Trapalha.  Além  de  uma  filha,  netos  e 
bisnetos  tem  um  irmão  com  a  edade  de  96 
annos. 


EM  TERRAS    DE    PORTUGAL 


83 


Houve  jantar  de   familia,  musica  e  fogue- 
tes, verdadeira  festa  d'aldeia. 

Todas  as  crianças  dos  lugares  próximos 


MAKIANA  TRAPALHA 


foram  visitar  a  pobre  velha  que  estava  radiante 
de  contentamento ;  foram  anjos  a  conhecerem 
aquella  alma  que  em  breve  tempo  subirá  ás 
regiões  sagradas  do  mysterio  e  da  paz  eterna. 


84  TM  TERRAS   DE   PORTUGAL 

Agora  deixando  estas  regiões,  levo  na  alma 
bem  gravado  todo  o  esplendor,  toda  a  força 
csthelica  d'estes  sitios  que  têm  para  mim  um 
conjunclo  de  attractivos  como  só  existem  cm 
terras  de  Portugal. 


Caldas  da  Rainha 

Agosto  Novembro 

1913. 


ACABOU-SE   DE   IMPRIMIR  ESIE  LIVRO 

AOS    DOIS    DE    JANEIRO 

DE    MIL  XOVECENTOS  E  QUATORZE  NA 

TYPOGRAPHIA  DA  LIVRARIA  FERIN, 

EDITORA,  RUA  NOVA  DO  ALMADA, 

NÚMEROS  SETENTA  A  SETENTA  E  QUATRO^  NA 

CIDADE    DE    LISBOA 


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DP              Pinto,   Alfredo 

525                  Em  terras  de  Portugal 

P55 

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